processo reverso
o material como autor e a ideia como consequência
na teoria, você tem ideias primeiro e depois procura materiais que encaixem no contexto. veja bem, na teoria. sim, no início precisamos saber das técnicas e processos pra depois podermos confronta-los, seguir as regras pra depois quebra-las, etc e tal. mas vamos falar dessa parte de fugir do óbvio?
meu processo é confuso, obviamente. processo criativo pra design segue sim uma lógica, tem um objetivo, coisas que todo mundo sabe. mas eu descobri nesse meio tempo pós graduação que não é isso que me contempla. não tenho certeza de como funcionam as teorias de criação de processo artístico, mas suponho que meu estilo seja mais semelhante a isso do que ao design.
dito isso, acho tudo que eu faço meio controverso. explico: o que eu faço, na maioria das vezes, são zines. zines, querendo ou não, são produtos. eles não seguem nenhuma proposta específica de terceiros, logo não tem um “brainstorming”, logo, não são design. são arte? arte com objetivo de ser vendida? sei lá, mas também não era isso que eu queria falar hoje.
vamos para um exemplo prático:
às vezes, entro no fontsinuse e passo horas vendo tipografias. a sorte dos proletários que ganham em real é que a maioria das fontes usadas nos projetos tem versões trial que podem ser baixadas e usadas normalmente (com ressalvas, na verdade, mas enfim). gosto especificamente de tipografias display, diferentes, nem sempre legíveis, que são só usadas em títulos (tipografia é pra ser sentida - já diria paula cruz). o que acontece com muita frequência é que, depois de baixar as fontes, eu quero usa-las. dá um siricutico, uma vontade incontrolável de colocá-las no mundo, em algum pedaço do meu portfólio, em alguma coisa qualquer com aquele detalhe.
daí meu processo segue a partir disso.
provavelmente tá errado. deus e alexandre wollner que perdoem meus pecados, mas é isso que acontece. eu já perdi minha carteirinha de designer gráfico mesmo. a de artista ainda tá pra chegar e eu fico nesse limbo. (que dilema clássico, não? provavelmente algum grego já filosofou sobre isso em 3000aC)


mas, caro leitor, isso não foram zines. são só artes que viram prints ou adesivos e coisinhas do gênero. vamos falar de projetos levemente mais complexos. daí vou ter pelo menos dois exemplos.
o primeiro é a série etologia cotidiana. eu tinha resmas de folhas de sulfite 90g naquelas cores clássicas: rosa, azul, verde, amarelo. eu já queria fazer uma série de zines mais simples usando esses papéis, no formato de dobra estrela, impressos só em preto, a laser mesmo e tal. eu tinha também umas imagens de referência de uso livre, de animais no estilo de ilustração acadêmica. e, por fim, frases geradas nas primeiras oficinas que eu dei esse ano, de escrita criativa. essas frases, soavam pra mim, como conselhos ditos por pássaros - logo, pareceu natural usar as imagens respectivas e nomear o zine como revoada. eu não sei explicar porque, mas eu queria uma tipografia super condensada, e que preenchesse a página dupla inteira. e a cor da folha seria verde. ok, uma cor definida, faltam três. pra mim, era lógico seguir esse pensamento de “conselhos” que animais dariam pras outras cores, visto que elas estavam disponíveis, e eu ainda tinha várias outras imagens animalescas livres pra usar. para as frases, parti de ditados populares e coisas do gênero, invertendo a lógica de humanos falando sobre os animais, para animais aconselhando humanos: “não corra atrás das borboletas. cuide do seu jardim que elas virão” > “o cuidado atrai o que não se força”. não lembro se selecionei as frases primeiro ou se separei os animais em grupos de acordo com as cores. mas o resultado é que agora eu tinha o resto já definido, e tudo isso partiu do material que eu tinha disponível e que eu queria usar porque sim.


agora sobre o “catálogo nacional de palavras maravilhosas”. essa é quase antiga. em 2024 tive a ideia de começar um coletivo. para “apresentar” o coletivo, tivemos a ideia de fazer um zine com o manifesto, mvv, e fichas dos participantes em formato de pasta policial, de arquivo. compramos as pastas e adaptamos o formato, cortando elas no comprimento e na largura. os cortes do comprimento foram imediatamente usados nos cartões de visita - também usando o material primeiro como inspiração pro objeto que foi criado a partir dele. sobraram então pedaços com formato de carnê, talão de cheque ou derivados. ficaram guardados por meses, esperando sua hora de brilhar. retomando a ideia de utilizar tipografias só porque elas são legais, fui juntando minhas palavras brasileiras preferidas - como estapafúrdio, mequetrefe, cafofo. a principio, pensei em usar elas numa série de adesivos, depois em chaveiros com as palavras costuradas na máquina de costura, mas logo descartei essa possibilidade porque não valeria a pena. os adesivos eram viáveis, mas ainda não pareciam o ideal. quando percebi que eu já tinha cerca de 50 palavras, falei automaticamente que parecia um dicionário. pronto. era isso. desenvolvi os significados no meu estilo, bem humorado e irônico mas também esperançoso e levemente poético. o que resultou em vocábulos como malemolência (substantivo feminino): talento de sobreviver sem endurecer. nessa parte do processo, entra o café e o energético, aquela necessidade de energia extra pra desenvolver aquilo que não é exatamente da minha área, visto que não sou escritora, poeta ou redatora. passada essa fase, desenvolvi a diagramação de acordo com os restos de pasta-quase carnês. porque era óbvio. eu tinha o material físico pra um zine de formato diferenciado, execução fácil, e conteúdo pra isso. era só juntar os dois. e assim foi feito.

me consta que tenho mas um exemplo recente pra citar: antologia anormal. novamente, uma ideia de formato já anotada pelo coletivo e que a princípio não havia conteúdo pronto - um zine em uma caixinha de DVD. faríamos uma análise de cisne negro (pelo nome do coletivo e porque o filme é extremamente analisável do ponto de vista semiótico) mas o coletivo se foi antes da ideia ver a luz do dia. quando, de repente, surgiu a oportunidade de participar de um curso de auto publicações, que era pra ter rolado ano passado. minha inscrição tinha sido com a série anacrografia, mas eu acabei desenvolvendo ela sozinha depois de não ter sido selecionada até então. resultado: eu estava agora num curso sem projeto pra desenvolver. novamente, nem preciso dizer, mas veio a ideia de usar o material pra me guiar. usei a caixa de DVD como ponto de partida para escrever não somente uma análise de um filme, mas um conjunto de análises de filmes baseadas no conceito de anormalidade de Foucault (eu estava em uma fase meio vampírica e o conjunto de filmes variou de temas como antropofagia aka canibalismo para monstros literais e padrões de comportamento). resumindo: mais uma vez que o material vou basicamente autor da obra.



tudo isso sem contar o processo extremamente acidental que postei ontem. guiado por restos de adesivos e tinta e um clique errado e limpeza de gravura.
e eu não quero chegar aqui no final do texto e dizer que eu tenho uma conclusão fabulosa e revolucionária do tipo: não siga regras!! fuja do óbvio!! (des)confie do processo!! isso aqui é só um relato num texto de substack, oras. e eu não sou ninguém na fila do pão - e mesmo se fosse…?
mas que fique registrado, pra mim mesma, que no momento, estou satisfeita com os resultados desse “processo reverso”, invertido, descontrolado. que eu estou em paz com essa situação e que eu me sinto feliz fazendo minhas coisinhas. que no fundo é o que deveria importar, não?
ps: texto publicado sem revisão - um vomito de palavras organicamente confeccionado numa manhã de sexta feira, inspirado por mim mesma trabalhando e no curso Subvertendo o Design de Paula Cruz, sem usar nenhum tipo de IA. pode ser que esteja confuso, mas é reflexo da realidade.

